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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Entrando e saindo da bolsa na hora certa


"Time in the market beats time the market"

Um dos ensinamentos do livro "O investidor inteligente" é que se deve investir em bons ativos sem querer adivinhar pra onde o mercado vai. Por outro lado, muitos investidores tem uma reserva de oportunidade, um dinheiro estacionado em algum lugar pra ser investido quando o mercado cai. Não deixa de ser uma estratégia para "time the market", ou seja, esperar que o mercado vá para um certo lugar para só então investir.

Este post é baseado num estudo publicado no blog Early Retirement Now. Leia-o para entende melhor. Ele testou uma estratégia de entrar e sair da bolsa baseada na média do fechamento dos últimos 10 meses. Se fechar o mês acima da média, mantém a posição. Se fechar abaixo, joga tudo pra renda fixa, retornando quando voltar a fechar acima da média.

No caso do S&P500 funcionou. Mesmo que a maioria dos giros de carteira não tenham valido a pena, os que valeram foram mais que suficiente para superar o mercado. No entanto as taxas e impostos não foram considerados, pois ele acredita que realmente não daria certo se estes fossem levados em conta. Esta estratégia faria sentido somente para um certo tipo de conta que existe nos EUA onde não se paga imposto ao se desfazer de um ativo para comprar outro.

E o Brasil ?

O vagabundo aqui como não tinha nada melhor pra fazer foi lá vasculhar a internet e baixou os fechamentos da Bovespa desde 1995 e também as taxas SELIC. Montei esta planilha que você pode baixar e brincar com os parâmetros.

A idéia é a mesma do estudo do ERN. Quando a bolsa fecha abaixo da média você encerra a posição e joga tudo em algo que rende a taxa SELIC. A planilha te mostra qual seria o rendimento da bolsa, da SELIC e da carteira que segue essa estratégia, a qual chamei de carteira TTM (Time The Market).

Por exemplo, se deixar os parâmetros assim:

Mês inicialAno inicialMeses para média móvel% IR ao vender RV
119951015,00%

O investidor entra comprado em janeiro de 1995 e paga 15% de imposto sobre lucro ao se desfazer da RV. Faz de conta que ele só tem BOVA11 e nada mais. A planilha calcula o imposto de renda ao girar a carteira mas não as taxas de corretagem e custódia. Assume-se que o investidor esteja numa corretora onde estes custos sejam irrelevantes no longo prazo. O resultado é esse ao final de setembro de 2020:
TTMIBOVSELIC
1460,85%2335,11%4282,12%

Opa, não deu certo ! A carteira TTM perdeu feio. Algumas estatísticas:

MesesGiros de carteiraMeses em RVMeses em RFQuantas vezes valeu a pena girar
309512061039

17%67%33%35%

Foram realizados 51 giros de carteira (RV para RF e vice-versa), o que corresponde a 17% dos meses. Praticamente a cada 5 meses o investidor girou o patrimônio. 67% do tempo ficou investido em RV. Ao voltar pra RV a planilha calcula se valeu a pena ter ficado fora da bolsa. No caso 9 vezes, ou apenas 35% valeu a pena, ou seja, no período em que o investidor ficou fora da bolsa a RF de fato rendeu mais que a RV.

Então não dá certo no Brasil. Será ? Aí entra uma diferença do nosso mercado pro americano: a volatilidade. 10 meses é um tempo muito longo pra calcular a média móvel. Eu brinquei com os números e me parece que 5 meses é o sweet spot. Às vezes, 2 meses apenas. Repetindo a simulação com os parâmetros acima, apenas mudando o número de meses de 10 pra 5, temos um resultando bem diferente:

TTMIBOVSELIC
MesesGiros de carteiraMeses em RVMeses em RFQuantas vezes valeu a pena girar
7696,45%2335,11%4282,12%
3096120010913





20%65%35%43%

A carteira TTM deixou as outras comendo poeira. Veja que apenas 43% das trocas valeram a pena, mas estas foram mais que suficientes pra garantir a performance. Vamos ver um exemplo, olhando a aba "Dados" da planilha.

MêsIBOV do mêsRendimentoAcumulado IBOVMédia móvelPosição RV no mês
01/20113761,00-1,64%2828,21%109925,00Dentro
02/20104260,00-8,35%2583,66%109828,00Dentro
03/2073011,00-29,97%1779,31%102986,00Fora
04/2080501,0010,26%1972,10%97437,00Fora
05/2087395,008,56%2149,55%91785,60Fora
06/2095062,008,77%2346,90%88045,80Fora
07/20102913,008,26%2548,98%87776,40Dentro
08/2099382,00-3,43%2458,10%93050,60Dentro
09/2094604,00-4,81%2335,11%95871,20Dentro

Em fevereiro de 2020 o IBOV fechou abaixo da média móvel dos 5 meses anteriores. Nesse momento o investidor passaria tudo pra renda fixa. Em junho o IBOV fechou acima da média e ele girou a carteira de novo, voltando pra renda variável. Enquanto esteve fora da RV, esta rendeu -8,82% (coluna T da aba "Dados") enquanto a RF rendeu pouco menos de 1% (colunas K e O). Ou seja, este giro em particular valeu a pena.

Não é difícil achar um número pra média móvel pra bater o IBOV. Já o mesmo não acontece pra SELIC. Essa dá mais trabalho pra superar. Iniciando em janeiro de 2010 não consegui fazer a carteira TTM bater a SELIC. Porém achei um período em que a carteira TTM não supera o IBOV: a partir de janeiro de 2016. Mesmo com a queda de 2020 o bull market foi forte e não teria valido a pena ficar de fora da festa nem um mês.

As altas taxas de juros contribuem decisivamente para uma boa performance da carteira TTM. Mas há um porém: na época em que a SELIC batia 20-30% ao ano ninguém ganhava esse valor. Havia taxa de administração na faixa de 5% e nenhum fundo DI ou CDB pagava 100% do CDI. Não achei como embutir isso no cálculo. Fica a ressalva. 

O que fazer com esses dados ?

Pra quem tem previdência privada, onde pra fazer portabilidade de um plano pra outro não paga nada, valeria a pena ficar migrando de RV pra RF de vez em quando. Também pra quem tem RV concentrada em poucos ETFs poderia ser uma opção. Pra quem tem um monte de ações seria um baita trampo vender tudo de uma vez pra migrar pra RF, depois comprar um a um todos os papéis de novo. Na prática é um exercício mais de curiosidade.

Mesmo assim, eu particularmente vou começar a ficar de olho nessa métrica. Mais uma variável na tomada de decisão !

Baixe a planilha, brinque com os números e comente aqui o que achou da brincadeira.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Balanço - Outubro/2020

  

Salve amigos da blogosfera e nerds das finanças em geral ! Lá vamos nós pra mais um fechamento.

Basicamente tudo vinha se recuperando até a última semana do mês, quando o tempo fechou e tudo despencou. A múmia aqui sabia que ia rolar segunda onda mas não fez nada pra diminuir o preju.

A SELIC foi mantida em 2%. Estão de brincadeira. Viramos primeiro mundo ? Só no papel mesmo.

Desempenho da carteira


Todas rentabilidades abaixo são líquidas, com exceção de previdência privada. Já está descontado IR e taxas para se desfazer dos ativos. Para ativos no exterior considerei um ágio de 5% no câmbio se quisesse trazer tudo pro Brasil, mais multas e impostos.

Tesouro direto (Pré-fixado, IPCA, Selic): -0,14%
Uma merda.

Renda Fixa (CDB, LCx): 0,47%
Show !

Fundos: 0,32%
Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

FGTS: 0,25%
Maravilha !

Ações: -0,42%
Enfim consegui me desfazer dos últimos lotes de KLBN3. Empresa cíclica nunca mais ! Não é pra amadores como eu ! Também vendi IRBR3 e ITSA4 antes que despencasse. No fim não deu pra ficar no positivo.

FIIs:  -1,43%; DY do mês ficou em 0,5%
Um mês difícil outra vez. Um ano perdido. No entanto rolou mais dividendos que no mês anterior.

EUR: -0,7%
O medo da segunda onda contagiou o mercado e nem a valorização da moeda impediu um resultado negativo

USD: 0,42%
Mercado deu uma caída mas o câmbio segurou.

Stock plan: -30%
Uma queda fenomenal... Ainda bem que agora só tenho algumas poucas ações.

Veja detalhes atualizados sobre a carteira no meu Painel de Controle.

Outros ativos


Colchão de segurança: 0,1%
Pelo menos não caiu !

Beleza, uma bela surpresa.

Resultado do mês


Rendimento global da carteira: -0,24% - um fracasso ! No ano acumula 1,46%
Rendimento real nos últimos 12 meses: -0,07%
Taxa de retirada nos últimos 12 meses: 2,33% - dentro da meta

Indicadores do mês:

CDI: 0,16%; no ano 1,9%
IPCA: 0,86%; no ano acumula 2,22%
Poupança: 0,12%; no ano 1,88%

Com esse resultado estou perdendo até pra poupança esse ano ! Que fase !

Como já passei de 1 ano de vagabundagem posso mostrar a taxa de retirada anual, que é mais fácil de entender e acompanhar. Esta taxa 2,33% é a divisão de todas as despesas dos últimos 12 meses, menos renda passiva (cupons de tesouro, dividendos de FIIs e ações), pelo valor da carteira 1 ano atrás. Ou seja, é retirada mesmo (venda de ativos).

Assim, continuo planejando uma taxa de retirada por volta de 2,6% ao ano no máximo. Esta taxa foi calculada em cima da carteira do início do ano, já descontando uma estimativa de dividendos a receber. Não considero renda de aluguel nem meu imóvel nessas contas.

Próximos passos


Vai vencer outro CDB este mês e ainda não sei se vou reaplicar. Minha escadinha de CDB tá tão bem montada que estou pensando em fundi-la com meu colchão de segurança (reserva do dia-a-dia e dinheiro estacionado pra não precisar vender ativos em baixa).

Bolsa só invisto se conseguir me desfazer do último mico da carteira: IRBR3.

Vinha mantendo uma rotina de exercícios consistente e convivendo com a obrigação de usar máscara indo fazer caminhadas mais curtas em parques. Agora com os parques fechados e provável nova quarentena estou prestes a desistir e abraçar o sedentarismo. Leitura e meditação são hábitos que não consegui introduzir no meu sabático e poderiam bem ocupar essa lacuna.

Acho que vamos ficar mais um ano nesse pesadelo. Não era o que eu queria pro meu sabático, mas é o que tem pra hoje.