Pesquisar este blog

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

TSR para o Brasil: um estudo sobre os primeiros anos de IF


Fazia tempo que eu queria fazer esse estudo. Já havia sugerido no blog Aposente aos 40, que publicou alguns estudos parecidos, que levam em conta os 25 anos de estabilidade econômica do Brasil. Um período muito curto para um estudo no estilo do Trinity Study.

Nesses estudos americanos com mais de 100 anos de dados é tranquilo você determinar o valor final de uma carteira ao longo de 30 anos (período de aposentadoria). Isto porque a amostra é grande, existem dezenas de períodos de 30 anos para calcular (1900-1929, 1901-1930, etc). Com 25 anos não temos condições de fazer um estudo sobre TSR no Brasil. Basicamente é por isso que eu não sigo a regra dos 4%.

Mas podemos fazer um estudo com períodos menores.

Como os primeiros anos são os mais importantes para um investidor aposentado, a idéia é saber qual a taxa máxima de retirada possível para que uma carteira de ativos brasileiros não só sobreviva 10 anos, como também termine com um valor igual ou superior à inflação do período, mantendo o poder de compra inicial. Assim, o investidor tem muito mais chances de não ficar sem dinheiro nos 30-40 anos seguintes de aposentadoria.

Pois outro dia comecei brincar com uma planilha e a coisa tomou forma. Os resultados me deixaram surpreso.

Metodologia

1. O cidadão se aposenta em 31 de dezembro com uma carteira composta por um investimento em renda fixa que segue o CDI e/ou outro em renda variável que segue o IBovespa. O percentual de cada é parâmetro, informado na planilha.

2. Dia primeiro de janeiro ele faz uma retirada de acordo uma taxa pré-definida (outro parâmetro)

3. No decorrer do ano paga suas despesas com a retirada

4. No dia primeiro de janeiro ocorre uma nova retirada, agora corrigida pela inflação do ano anterior

5. Repetir passos 3 e 4 até completar 10 anos.

6. Se o saldo final preservar o poder de compra inicial de acordo com o parâmetro informado (quanto do poder de compra deve ser preservado), aquele período de 10 anos foi um sucesso

7. Refazer os cálculos para o próximos período de 10 anos

Ao final a planilha te diz a taxa de sucesso, ou seja, em quantos por cento dos períodos de 10 anos o patrimônio ficou preservado apesar das retiradas. Para simplificar, não foi levado em conta impostos nem taxas. Rebalanceamento anual - a carteira sempre manterá a proporção RF/RV inicial.

Clique AQUI para baixar a planilha e fazer suas simulações.

Primeira rodada de simulações (1995-2019)

Primeiro fiz várias simulações com os seguintes parâmetros:

  • Ano inicial 1995, o que nos dá 16 períodos de 10 anos
  • Carteira inicial de 1 milhão de reais
  • Poder de compra final deve ser 100% do inicial pelo menos
  • Taxas de retirada 2%, 3% e 4%
  • Carteiras 100% RV, 50% RV / 50% RF e 100% RF.
Eis os resultados:

TR% RFSucessoMelhor resultadoPior resultado
2%0%69%1996-2005 341%2008-2017 46%

50%81%1996-2005 365%2008-2017 89%

100%100%1995-2004 277%2010-2019 115%
3%0%63%1996-2005 321%2008-2017 35%

50%75%1996-2005 344%2008-2017 77%

100%100%1995-2004 259%2010-2019 103%
4%0%56%1996-2005 300%2008-2017 23%

50%69%1996-2005 323%2008-2017 66%

100%75%1995-2004 241%2010-2019 91%

Veja a aba "Resultados" da planilha.

Então temos: uma taxa de retirada de 3% numa carteira 100% em renda fixa preservou o poder de compra inicial em todos os casos. No pior deles, quem se aposentou em 31/12/2009 obteve de 2010 a 2019 um crescimento de 3% em relação a seu poder de compra inicial.

Quanto mais renda fixa, mais chance de sucesso. No entanto diminuir a renda fixa resultou nas décadas mais lucrativas. Infelizmente se você olhar na aba "Cálculo" o rendimento não se mantém, pois logo temos alguma(s) queda(s) levando a uma década perdida que faz a taxa de sucesso ser menor que 100%.

Os rendimentos generosos da renda fixa no passado pesaram no período 1995-2019.

Segunda rodada de simulações (2005-2019)

Esta rodada foi para tentar entender como fica num cenário com juros menores. Com os mesmos parâmetros de antes, exceto o ano inicial agora sendo 2005, resultando em 6 períodos de 10 anos:

TR% RFSucessoMelhor resultadoPior resultado
2%0%17%2009-2018 109%2008-2017 46%

50%50%2005-2014 134%2008-2017 89%

100%100%2005-2014 143%2010-2019 115%
3%0%0%2009-2018 97%2008-2017 35%

50%33%2005-2014 123%2008-2017 78%

100%100%2005-2014 131%2010-2019 103%
4%0%0%2009-2018 85%2008-2017 25%

50%17%2005-2014 113%2008-2017 66%

100%33%2005-2014 118%2010-2019 91%

Mais uma vez a configuração vencedora foi retirada de 3% com uma carteira 100% em renda fixa. Porém reparem na coluna "Melhor resultado" acima como o poder de compra final é bem menor em comparação com a primeira rodada de simulações. Reflexo de juros cada vez menores.

Isso implica num melhor desempenho da renda variável ? Infelizmente não. Ao contrário do período 1995-2019, ao aumentar o percentual de renda variável o poder de compra final diminui (coluna Melhor Resultado). Entre 2005 e 2019 o melhor período 100%RV foi 2009-2018, que com uma taxa de retirada de 2% resultou num poder de compra de 109% do inicial. O mesmo cenário entre 1995 e 2019 nos traz como vencedora a década 1996-2005, com estonteantes 341%. Quem se aposentou em dezembro de 1995 com tudo em RV e retirando 2% por ano teria ao final dos primeiros 10 anos seu poder de compra mais que triplicado ! 

The best of the best

Nessa rodada quis saber qual foi a década que suportou a maior taxa de retirada possível. Mais uma vez a diferença entre os anos 90 e os dias de hoje é gritante:


% RFPeríodo campeãoTR máxima

0%2003-201215%
1995-201950%1996-200514%

100%1995-200411%

0%2009-20182%
2005-201950%2005-20145%

100%2005-20145%


Se eu tivesse uma máquina do tempo, viajaria até 2003 com uma mala com um milhão de reais e colocaria tudo em RV, torrando 15% (150k) todo ano. Em 2012 teria que repensar essa estratégia, pois a melhor taxa pra uma carteira 100% RV entre 2005 e 2019 ocorreu no período 2009-2018: apenas 2% !

No período 2005-2019 a renda fixa proporcionou maiores taxas de retirada em comparação com a renda variável. Já no período 1995-2019 foi o contrário.

Conclusão

Tanto RV como RF tem apresentado rentabilidades cada vez menores. Estamos num limbo ! Juros reais 0% e bolsa inconsistente é a nova realidade, pelo menos até o Brasil conseguir engatar um ciclo estável de crescimento.

Mas será que passados 10 anos já estamos seguros ? Ou bastam 5 anos ? Acho que não. Simule por exemplo 50%RF, TR 3% a partir de 1995. Veja o período 2006-2015. Ao final do quinto ano está tudo beleza, mas daí sucessivas quedas na bolsa minaram o patrimônio que finalizou com 93% do seu poder de compra inicial:

AnoSaldo InicialGanhos RFGanhos RVCarteira inicial corrigidaNova retiradaPoder de compraPeríodoVariação

200697000068337159711103140030942

97,00%
2007116710565475254721107740032322

113,16%
2008145497885262-299871114096734229

135,05%
2009120614056990498498119014335704

105,71%
20101725923806878975126048037814

145,02%
2011177777197955-160977134241140272

141,04%
201216744766781661956142080842624

124,74%
2013176162468527-136526150477845143

123,99%
2014164848285062-23985160123448037

109,55%
20151661521104011-1105741772086


103,77%
FINAL1654958



93,39%2006-201593,39%

Interessante notar que o aposentado e quem está na ativa estão em pontas opostas. Para o aposentado é interessante que os maiores ganhos venham no início da aposentadoria, já para quem está na ativa é melhor que os maiores ganhos venham nos últimos anos da fase de acumulação, quando o patrimônio é maior. Para o aposentado uma queda prolongado pode arruinar seus planos, já pra quem está na ativa significa adquirir mais ativos com menos dinheiro.

E se desse pra direcionar melhor as retiradas, pra evitar sacar quando a RV está no fundo do poço ? E se uma parte ficasse em poupança pra cobrir os gastos diários, deixando a RV intocada para que no longo prazo ela cresça mais ? Daria pra fazer de várias formas mas preferi começar de um jeito bem simples. Quem quiser pode pegar a planilha e tentar melhorá-la, eu apoio !

Espero que tenha se divertido com esse post. Faça suas simulações e deixe suas sugestões e impressões nos comentários.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Balanço - Agosto/2020



Mais uma fase vencida !

Este mês me chamou a atenção a febre de investir no exterior. Meu gerente no banco me recomendou. O youtuber Daniel Nigri (Dica de Hoje), que ano passado deixou escapar que investir nos EUA era "vontade de comprar topo", começou a fazer vídeos sobre o assunto. É bolha ? Fato é que pelo menos pra mim foram os ativos que mais valorizaram esse ano e me salvaram da falência. 

Por causa de um problema com a Modal fiquei uns 20 dias sem poder operar. De saco cheio, mudei pra Clear. Tomara que seja melhor ! Posso elogiar a Modal numa coisa: a rapidez com que processaram meu pedido de transferência de custódia. Se fossem tão rápidos assim com outras coisas eu ainda estaria lá.

Voltei a contribuir pro INSS conforme estratégia comentada anteriormente aqui no blog. 20% do salário mínimo, a cada 6 meses. Ainda peguei IPTU como sempre e DARF de lucro com FIIs. Um mês cheio de impostos !

O blog Aposente aos 40 está promovendo sua pesquisa anual para conhecer a comunidade de finanças. Eu já respondi. Participe também ! Só clicar AQUI.

Desempenho da carteira


Todas rentabilidades abaixo são líquidas, com exceção de previdência privada. Já está descontado IR e taxas para se desfazer dos ativos. Para ativos no exterior considerei um ágio de 5% no câmbio se quisesse trazer tudo pro Brasil, mais multas e impostos.

Tesouro direto (Pré-fixado, IPCA, Selic): -1,2%
Um desastre ! Mas é isso mesmo: tudo que sobe, tem que descer...

Renda Fixa (CDB, LCx): 0,36%
Tá ótimo !

Fundos: -0,22%
Uma merda.

FGTS:  2,2%
Maravilha ! Rendimento turbinado pela distribuição de lucros. Com isso segue firme para superar minha carteira RF pelo segundo ano consecutivo. Quem diria ?

Ações: -3,9%
Segue volátil e imprevisível. Quase tudo caiu. IBOV recuou 3,4%.

FIIs: 0,8%; DY do mês ficou em 0,47%
Uma modesta recuperação, num mercado ainda bastante incerto.

EUR: 9,3%
Bombou !

USD: 10,8% 
Está explodindo ! Daqui há pouco vou ter que vender IVVB11 pra não ficar tão concentrado !

Stock plan: 9,7%
Mais uma vez alta da moeda e da ação.

Veja detalhes atualizados sobre a carteira no meu Painel de Controle.

Outros ativos


Colchão de segurança: 0,13%
Mais que isso não vai.

Caindo por causa da bolsa. Estou fazendo portabilidade de uma parte da minha previdência privada para o fundo Carteira Itaú, pra dar uma diversificada. Também fiquei sabendo que PGBL paga imposto de herança, ou seja, não serve pra planejamento sucessório. Por isso vou começar a migrar pra VGBL um pouco todo ano. Como estou na tributação progressiva, vou sacar até o limite da minha faixa de imposto, que este ano deve ficar em 7,5%. Poderia aproveitar a dedução no IR que o PGBL oferece e aportar um pouquinho mas acho que nem compensa.

Resultado do mês


Rendimento global da carteira: 0,9% - tá ótimo ! No ano acumula 2,5%
Rendimento real nos últimos 12 meses: 3,9%
Taxa de retirada nos últimos 12 meses: 2,3% - dentro da meta

Indicadores do mês:

CDI: 0,16%; no ano 2,12%
IPCA: 0,24%; no ano acumula 0,70%
Poupança: 0,13%; no ano 1,64%

Com esse resultado eu enfim superei o frágil CDI. A parte atrelada a dólar e euro salvou o mês mais uma vez.

Como já passei de 1 ano de vagabundagem vou começar a reportar a taxa de retirada anual pois acho que é mais fácil de entender e acompanhar. Esta taxa 2,3% é a divisão de todas as despesas dos últimos 12 meses, menos renda passiva (cupons de tesouro, dividendos de FIIs e ações), pelo valor da carteira 1 ano atrás. Ou seja, é retirada mesmo (venda de ativos).

Assim, continuo planejando uma taxa de retirada por volta de 2,6% ao ano no máximo. Esta taxa de retirada estimada foi calculada em cima da carteira do início do ano, já descontando uma estimativa de dividendos a receber. Não considero renda de aluguel nem meu imóvel nessas contas.

Próximos passos


Nesse momento minha impressão é que o medo da segunda onda está enterrando o mercado de trabalho de novo. Ligações e e-mails de headhunters minguaram de uns 20 dias pra cá.

Tenho estudado pra me atualizar e aumentar minhas chances de arrumar uns freelances. Esse negócio de estar fora do mundo corporativo é tão bom que estou afim de aproveitar mais. Quero voltar pro escritório pra fazer mais uma grana e sair fora de novo. Uma grana extra vai me servir pra aproveitar ainda mais essa vida de vagabundo. 

Iniciando a nona temporada de 2020...