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terça-feira, 2 de junho de 2020

Balanço - Maio/2020


Há alguns dias me veio na cabeça a tamanha distopia que estou vivendo. Pandemia, pandemônio, SELIC a 3%, lojas fechadas, 2 meses sem sair da cidade, todo mundo usando máscara e eu andando na rua com a minha filha de bicicleta, sem emprego e prestes a completar um ano de vadiagem. Às vezes parece surreal.


Água mole em pedra dura... esse mês fiz meu primeiro trampo freelance. Foi uma consultoria rápida, coisa bem pontual. Agora espero que se confirme conforme o ditado: onde passa um boi, passa uma boiada.

Desempenho da carteira


Tesouro direto (Pré-fixado, IPCA, Selic): 1,12%
Com a distópica taxa SELIC de 3% comecei a mover um pouco pro TD IPCA 2026, onde estou com taxa média de 3,60%. Vai variar mais que o Tesouro SELIC porém vai ser um montante que eu acredito só precisar daqui a 6 anos.

Renda Fixa (CDB, LCx): 0,27%
Mais que isso não vai.

Fundos: 3,2%
Excelente !

FGTS: 0,25% 
Quem diria que um dia seria tão rentável quanto um CDB 100% do CDI...

Ações: 5,6%
Esse mês estudei bastante. Fiz planilhas, apliquei a fórmula mágica do Greenblatt e os critérios de Value Investing do Graham. Montei de um jeito que todo mês em meia hora eu consigo ver o que teoricamente vale a pena comprar e vender. Só compro se for bem nos critérios do Greenblatt e do Graham, pagar dividendos por menores que sejam e estiver com P/L abaixo da média nos últimos 3 anos. Entraram TGMA3 e LEVE3, que foram bem (apesar que praticamente qualquer merda subiu esse mês). Falei que só ia pegar blue-chips mas me rendi aos números. Small caps como essas terão no entanto participação menor na carteira.  
Aproveitando a euforia do mercado (87k ?!?) zerei minha posição em ABEV3. Em 3 anos de buy-and-hold obtive um ridículo rendimento de 1,45%, fora os pífios dividendos que nem vou me dar ao trabalho de somar. Ação picolé de chuchu foi essa ! Também desovei um pouco de KLBN3 e pretendo zerar até o fim do ano, mesmo que seja com prejuízo.
Maior alta do mês: TGMA3 (+14%); maior baixa: IRBR3 (-17%).

FIIs: -0,5% ; DY do mês ficou em 0,4%
Houve uma leve queda e os dividendos foram impactados pela crise. Maior alta: MXRF11 (7,6%); maior baixa: RBFF11 (-9,5%).

EUR: 3,5%
Segue em recuperação.

USD: 3,5% 
Idem.

Stock plan: 5,9%
Mesma coisa.

Veja detalhes atualizados sobre a carteira no meu Painel de controle.


Outros ativos


Colchão de segurança (Tesouro SELIC, Fundo DI): 0,22%
Não imaginava a SELIC bater 3% tão cedo. Já estou pensando em voltar pra poupança. Pra aplicacão de menos de um ano ela ganha do Tesouro SELIC. A taxa de 0,25% da B3 está muito pesada agora.
Tá ótimo.


Resultado do mês


Rendimento global da carteira: 1,7% - excelente; no ano ainda acumulo -2,6%
Rendimento global da carteira, líquido de inflação*: 2,16%
Taxa de retirada: 0,32% - bem acima da meta mas já era previsto. Troquei de apartamento e tive despesas extras por causa da mudança.

Indicadores do mês:

CDI: 0,24%; no ano 1,54%
IPCA*: -0,45%; no ano seriam -0,23%
Poupança: 0,22%; no ano 1,20%

*Inflação prevista

Continuo planejando uma taxa de retirada por volta de 2,6% ao ano no máximo, o que daria uma retirada mensal de 0,22%. Esta taxa de retirada é calculada em cima da carteira do início do ano, já descontando uma estimativa de dividendos a receber. Ou seja, é retirada mesmo (venda de ativos). 

Todas rentabilidades acima são líquidas, com exceção de previdência privada. Já está descontado IR e taxas para se desfazer dos ativos. Para ativos no exterior considerei um ágio de 5% no câmbio se quisesse trazer tudo pro Brasil, mais multas e impostos.

Com esse resultado meu patrimônio, corrigido pela inflação, voltou pro mesmo patamar de quando joguei a toalha. Primeiro subiu, daí no começo do ano despencou, agora recuperou um pouco e estou no zero a zero.


Próximos passos


Renda fixa não dá, está morta. Na renda variável, vejo a bolsa frágil e os FIIs raquíticos. Pra mim não compensa o risco. O negócio é mandar grana pra fora, nem que seja pra ficar parada na conta. Mesmo que não invista, uma hora vou usar no dia a dia.

Andei estudando aposentadoria pelo INSS e quero fazer um post sobre isso em breve.

E vamo que vamo.

sábado, 16 de maio de 2020

Síndrome de Solomon: o medo de se destacar do rebanho

Hoje um post no estilo do inimitável colega SoulSurfer, do blog Pensamentos Financeiros. :-)
Nossa sociedade tende a demonizar o sucesso, a condenar quem se dá bem e é talentoso. Obviamente, as pessoas não dizem isso. Esse ato baseado na inveja do sucesso dos outros tem consequências claras: somos menos livres do que pensamos, porque somos altamente condicionados pelo meio ambiente. O medo de ser o elemento discordante em um grupo lança as bases para uma patologia conhecida como Síndrome de Solomon.
É um distúrbio caracterizado por o sujeito manifestar reações como tomada de decisão ou comportamento, evitando se destacar no ambiente social que o cerca. É comum que essas pessoas se impeçam de seguir o caminho desejado, tentando não deixar o caminho comum em que a maioria da população está. A síndrome de Solomon, portanto, mostra baixa auto-estima e falta de autoconfiança. As pessoas afetadas acreditam que seu valor depende de quanto são valorizados pelas pessoas no seu ambiente
Assim, um dos medos do ser humano é se destacar e se diferenciar. Os julgamentos de valor (às vezes, sem nenhuma referência ou conhecimento) e as críticas que recebem de outras pessoas motivadas pela inveja se tornam um vírus que paralisa seu progresso.
É importante notar que há uma parte importante da sociedade com medo de chamar muita atenção, por medo de que outros possam se sentir ofendidos por suas realizações, virtudes e sucessos. 
Para demonstrar a influência que um grupo pode ter sobre um determinado indivíduo, em 1951 o psicólogo americano Solomon Asch foi a um instituto para realizar um teste de visão. Pelo menos foi o que ele disse aos 123 jovens voluntários que participaram (sem saber) de um experimento sobre comportamento humano em um ambiente social. O experimento foi muito simples. Em uma sala na escola, ele se juntou a um grupo de sete alunos, conhecidos seus. Enquanto isso, um oitavo aluno entrou na sala acreditando que o restante participava do mesmo teste de visão que ele.
Posando como oftalmologista, Asch mostrou três linhas verticais de comprimentos diferentes, desenhadas ao lado de uma quarta linha. Da esquerda para  direita, o primeiro e o quarto mediam exatamente o mesmo. Então Asch pediu que eles dissessem em voz alta qual das três linhas verticais era a mesma que a outra traçada ao lado. Ele o organizou de tal maneira que o aluno que era a "cobaia" do experimento sempre respondia por último, depois de ouvir a opinião dos outros.
A resposta era tão óbvia e simples que quase não havia espaço para erros. No entanto, os sete companheiros de Asch davam a mesma resposta errada, um por um. Para disfarçar um pouco, eles concordaram que um ou dois dariam outra resposta, também errada. Este exercício foi repetido 18 vezes para cada um dos 123 voluntários que participaram. Todos eles foram feitos para comparar as mesmas quatro linhas verticais, colocadas em ordem diferente.
O resultado foi que apenas 25% dos participantes mantiveram seus critérios toda vez que foram solicitados; o resto foi influenciado e arrastado pelo menos uma vez pela visão dos outros. Depois de concluir o experimento, os voluntários reconheceram que "eles distinguiam perfeitamente qual linha estava correta, mas que não a haviam pronunciado em voz alta por medo de estarem, errados, de serem ridicularizados ou de serem o elemento discordante do grupo".
Este estudo continua a fascinar pesquisadores do comportamento humano. A conclusão é unânime: estamos muito mais condicionados do que pensamos. Para muitos, a pressão da sociedade continua sendo um obstáculo intransponível.
No entanto, inconscientemente, muitos de nós têm medo de chamar muita atenção - e até de ter sucesso - por medo de que nossas realizações perturbem os outros. Essa é a razão pela qual, em geral, sentimos pânico ao falar em público, pois, por alguns momentos, nos tornamos o centro das atenções. E assim, estamos expostos ao que as pessoas podem pensar de nós e, portanto, vulneráveis.
Particularmente lembro muito bem que quando tinha uns 8 anos na escola eu ia muito bem mas aquilo chamava demais a atenção da molecada. Eu sabia a matéria mas num certo momento parei de responder as perguntas que a professora fazia a todos durante a aula. Preferia não participar, ser só mais um calado na sala.

Décadas depois numa fase de muito stress no trabalho percebi que quem segurava o rojão recebia mais e mais buchas, enquanto que quem fazia o arroz com feijão não era tão exigido. Mais uma vez vi que se destacar não era bom, era melhor fazer só o básico, só o essencial.
Hoje em dia grande parte do meu círculo social não sabe que estou num sabático, vivendo do vento. Porque não falo abertamente ?... Síndrome de Solomon, quem sabe. É ridículo que eu me importe com o que iriam pensar. A imensa maioria, que está firme na corrida dos ratos, sequer entenderia. Mas mesmo assim opinaria, é claro.
Por outro lado, a Síndrome de Solomon pode explicar porque a imensa maioria dos que teriam condições de alcançar a IF continua na corrida dos ratos. De repente a pessoa percebe que há saída, mas como não conhece ninguém que toma esse caminho, prefere continuar onde está para não se diferenciar e ser questionada ou hostilizada.
Você conhecia esse distúrbio ? Se identifica ou conhece alguém que seja "maria-vai-com-as-outras" ?

sábado, 2 de maio de 2020

Balanço - Abril/2020



Mais uma vez está provado que o Brasil não é pra amadores ! 

Tínhamos uma crise sanitária, a qual ia claramente desembocar numa crise econômica porém de repente temos uma crise política em cima de tudo... De uma hora pra outra 70% da população quer impeachment. Já ouço os gritos de diretas já. A NASA tem que vir estudar o Brasil ! 

Até o "Moro Day" foi pra mim um mês bem chato. Essa quarentena tá osso.

Conforme eu já previa, acabei dando um desconto no aluguel. Meu inquilino teve que fechar seu negócio por causa da crise e ficou sem renda. Está bem na cara que ele não tem uma reserva de emergência. Quem tem, como eu, paga o pato.

Mas a pergunta do milhão é: consegui me recuperar da cacetada de março ?

Desempenho da carteira

Tesouro direto (Pré-fixado, IPCA, Selic): 1,24%
Não recuperou tudo mas já é um bom começo

Renda Fixa (CDB, LCx): 0,30%
Tá de bom tamanho

Fundos: 0,93%
Tá ótimo

FGTS: 0,25% 
O de sempre

Ações: 5,8%
No acumulado do ano estou só com -29%... Pra mim está havendo uma espécie de "vôo da galinha". Estabilizou na casa dos 80k mas pra mim ainda tá estranho. Só aporto se chegar perto de 70k. "Ah mas vai pra 90k" - sim, pra depois em um mês voltar pra 80... melhor ficar de molho na RF um pouco. Depois de perder 3 anos em um mês a gente fica mais cauteloso.

FIIs: 5,25% ; DY do mês ficou em 0,7%
Foi um bom resultado. Não vejo muita margem pra FII agora, já está bem precificado pra esses tempos difíceis.

EUR: 12,4%
ETFs se recuperando um pouco ao mesmo tempo que o real se desvaloriza dá nisso.

USD: 15,4% 
Mesma coisa. Além disso, IVVB11 é meu primeiro ativo a voltar a seu topo histórico.

Stock plan: 9,8%
Subindo legal depois de um tombo magistral.


Veja detalhes atualizados sobre a carteira no meu Painel de controle.


Outros ativos



Colchão de segurança (Tesouro SELIC, Fundo DI): 0,09%
Essa crise tá tão zuada que até meu fundinho DI basicão de baixo risco caiu.


Previdência Privada: 1,7%
Tirou o pé da lama um pouco mas continua negativo no acumulado anual. 


Resultado do mês



Rendimento global da carteira: 2,8% - o maior que já tive num único mês; no ano acumulo -4,2%
Rendimento global da carteira, líquido de inflação: 3,1%
Taxa de retirada: 0,11% - dentro da meta

Indicadores do mês:

CDI: 0,28%; no ano 1,3%
IPCA: -0,31%; no ano seriam 0,22%
Poupança: 0,22%; no ano 0,98%

Continuo planejando uma taxa de retirada por volta de 2,6% ao ano no máximo, o que daria uma retirada mensal de 0,22%. Esta taxa de retirada é calculada em cima da carteira do início do ano, já descontando uma estimativa de dividendos a receber. Ou seja, é retirada mesmo (venda de ativos). 

Todas rentabilidades acima são líquidas, com exceção de previdência privada. Já está descontado IR e taxas para se desfazer dos ativos. Para ativos no exterior considerei um ágio de 5% no câmbio se quisesse trazer tudo pro Brasil, mais multas e impostos.

Próximos passos


No geral a carteira está próxima da alocação que eu quero.

A direção continua a mesma. Tenho uma bela reserva em CDB com liquidez diária e Tesouro SELIC, que será metodica e pacientemente convertida em ações, FIIs e EUR até o fim do ano.

Numa outra frente vou comprar um pouco de Tesouro IPCA sempre que a taxa se aproximar de 5%.

É a boca do jacaré aberta esperando um peixe pular lá dentro.


Obrigado pela visita ! Espero que estejam se virando bem nesses dias de crise econômica, sanitária e política.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Porque não uso a regra dos 4% (e o que uso afinal)


Invariavelmente quem descobre a filosofia FIRE acaba trombando com a regra dos 4% e comigo não foi diferente. A beleza dessa regra está na sua simplicidade: pegue suas despesas anuais, multiplique por 25 e pronto, ali está seu número mágico ! Aí é só juntar essa grana e dar um pé na bunda do chefe. 

Porém lendo e relendo eu cheguei a conclusão que pra mim essa regra é só uma estimativa, e pouco precisa. 

Veja abaixo porque eu não adoto a regra dos 4%. 


Não invisto nos EUA majoritariamente

Tanto o estudo original do William Bengen quanto o Trinity Study pegaram como base o mercado americano, com dados de várias décadas num país que vem superando crises e crescendo nos últimos 100 anos.

É uma realidade muito diferente da nossa. Desconheço estudos semelhantes para o Brasil, um país cuja economia só se estabilizou nos últimos 25 anos - período muito curto para um estudo assim. Olhando para os EUA, por exemplo, temos 60 períodos de 30 anos entre 1926 e 2014. Estes começam todos os anos, de 1926 até 1985. Já quanto ao Brasil, somente daqui 5 anos teremos o primeiro e único período de 30 anos, de 1995 a 2024... não é possível simular o desempenho de uma carteira em um único cenário e tirar conclusões.

Até mesmo para outros países desenvolvidos é difícil e até mesmo não se recomenda aplicar a regra dos 4%. Veja em detalhe neste artigo.

30 anos de aposentadoria é muito pouco 

Pra uma aposentadoria tradicional aos 65 anos, 30 anos é bem razoável. Já pra quem quer parar aos 40, estamos falando de uns 55-60 anos de horizonte. É provável que se o portfolio durar 30 anos que ele dure 40, mas qual a probabilidade ?

Rentabilidades passadas

A rentabilidade dos bonds era altíssima nos anos 60 e 70. Muito fácil manter uma taxa de retirada a 4% quando o título do governo americano pagava 8%.

Pra quem quiser se aprofundar eu indico o blog "Early Retirement Now", onde o cidadão publicou tantos artigos de qualidade sobre taxa segura de retirada que honestamente não sei porque ainda se fala do Bengen e do Trinity Study. Entendo que foram contribuições importantes mas agora estão ultrapassadas. Veja o post abaixo - as 10 coisas que os criadores da regra dos 4% não querem que você saiba:

10 things the makers of the 4% rule don't want you to know

Despesas variáveis

A regra dos 4% é simples porque você usa suas despesas atuais somente. Porém durante os 50-60 anos de uma aposentadoria precoce muita coisa vai acontecer. 

Posso falar por mim. Vou educar outro ser humano nos próximos 15 anos, passando por todas as fases - infância, adolescência, faculdade - e custos que vão variar bastante, atingindo o pico na época da faculdade.

Depois eu vou estar mais velho, com mais tempo livre mas sem paciência pra aturar viagens tipo mochilão, hotéis baratos e camelagens em geral. Vou querer conforto e terei que pagar mais caro. Por outro lado já terei criado minha filha e não terei mais despesas com ela.

No final vou estar torrando uma grana com remédios e médico, pra no fim das contas ir morar numa casa de repouso, que também não é barato.

Todas essas fases são difíceis de modelar na regra dos 4%, pois ela te diz um valor fixo de retirada que você vai corrigindo pela inflação. Se você fizer a conta usando como base a fase com mais despesas, vai acumular muito mais dinheiro que precisa, correndo o risco de nem sequer chegar lá.

Regra genérica, não pessoal

Vejo o valor da regra dos 4% como uma estimativa simples e genérica do número mágico. É uma regra geral, que não deveria ser cegamente aplicada no plano individual. Se você realmente está disposto a puxar o gatilho acho que ela não dá segurança suficiente. Tem que fazer contas mais complexas.


Se você está começando a jornada rumo a IF ou está ainda longe de chegar lá, acho que pode considerar a regra dos 4% apoiada por diversas planilhas na internet que fornecem uma estimativa do "número mágico". No entanto, se você vê que está chegando perto e faltam cerca de 3 anos é melhor mudar para uma planilha personalizada.

Foi o que eu fiz.

O que eu uso então ?

Como na época não encontrei nenhum template ou site por aí, desenvolvi uma planilha onde eu planejo todas minhas despesas nos próximos 50 anos. Ela corrige tudo pela inflação estimada ano a ano, soma e me dá o número mágico. Clique aqui pra mais detalhes.

É a mesma idéia da planilha do blog Viagem Lenta, também trabalhada nos blog gringos Early Retirement Now e Retirement Manifesto. Em todas você informa despesas e receitas. A minha retorna quanto precisa ter em carteira pra cobrir todas as despesas e morrer zerado. Na do ERN adicionalmente você informa o valor da sua carteira e um valor para deixar de herança, e ela retorna quanto você pode sacar por mês e ano. Nas do Viagem Lenta e Retirement Manifesto você informa o valor dos seus investimentos e uma taxa de rentabilidade, daí vai brincando com os números até que o valor final do patrimônio seja maior que zero.

Eu teria usado a planilha do Viagem Lenta ou do Retirement Manifesto se soubesse que elas existiam (a do ERN é recente), e provavelmente teria mexido pra ficar do meu jeito - taxas ano a ano ao invés de constantes.

Com o número dessa planilha, eu preencho uma outra onde eu distribuo o valor para diversos tipos de ativos e suas taxas de retirada e yield correspondentes. Baseado nas despesas ali informadas, ela me diz qual seria o valor de cada ativo para obedecer à minha alocação de ativos. Eu sei então quanto devo ter em renda fixa, FIIs, dólar, reserva do dia-a-dia, etc para cobrir as despesas e posso assim planejar novos aportes ou rebalanceamento. Ela também calcula quanto de dividendos ou juros cada tipo de ativo pode gerar. Tem que testar mudando a alocação pra ver se chega na renda almejada.

Em resumo, pra declarar IF eu passei por estas fases:

1 - regra dos 4%
2 - planilha de planejamento de aposentadoria, ano a ano
3 - planilha de alocação de ativos e renda passiva

No início do ano refiz os cálculos dos passos 2 e 3. A taxa mínima que preciso ao ano estava em 3,5% (juros reais) em 2019, caindo agora em 2020 pra 3,03%. Vou chamar esta taxa de TNRP - Taxa Necessária para Remuneração do Patrimônio. É a mesma taxa apresentada pelo Viagem Lenta. A redução da taxa em geral é boa, só é preciso ter em mente que foram calculadas com orçamentos e cenários econômicos diferentes. A vida vai mudando e isso se reflete na TNRP. Ela é flexível.

Uma outra alternativa à regra dos 4% é você não se preocupar com o valor do patrimônio, e sim se a renda passiva que ele gera atingiu o valor que você quer. Você investe em ações de dividendos, FIIs, imóveis físicos pra aluguel e títulos que paguem juros de tempos em tempos. Esta idéia é usada por exemplo pelos blogueiros Sr. IF365 e Viver de Dividendos, além do youtuber Viver de Kitnet. Olhando a planilha do passo 3 dá pra ver que uso um pouco disso. A minha idéia é usar os dividendos para cobrir uma parte das minhas despesas e assim diminuir o valor necessário na reserva do dia-a-dia e a taxa de retirada. É o conceito de Yield Shield apresentado no blog Millenial Revolution.

Obrigado por ler até aqui, espero ter te agregado algo ! Qualquer dúvida, crítica ou sugestão, deixe seu comentário.

sábado, 4 de abril de 2020

Balanço - Março/2020 (Crash Edition)



Este mês completei 300 dias de vadiagem trancafiado em casa feito um condenado e vendo meu patrimônio derreter feito manteiga na chapa. Estamos diante de um cisne negro, aquele evento que ninguém esperava realmente. Vou resumir o que acho dessa crise:
  • Notícia ruim dá mais audiência.
  • Contra o pânico não há argumentos.
  • Melhor falido do que falecido.
  • A facilidade com que se pode restringir os direitos básicos das pessoas é assustadora e nos deixa um perigoso precedente.

Vários artigos por aí já afirmam que é o fim do movimento FIRE. Eu acho que é o fim do LeanFIRE. Outro dia vi um doido querendo viver de renda com 400k. Esse aí já deve estar procurando emprego de novo. Pra quem está nessa caminhada recomendo fazer um belo colchão de segurança e nada dessa de querer viver frugal porque sempre foi frugal. Crie uma gordurinha, vai precisar dela em tempos de vacas magras como estes.

Vamos ver qual foi o tamanho do estrago. Ai, ai, ai...

Desempenho da carteira

Tesouro direto (Pré-fixado, IPCA, Selic): -5,9% - um desastre de trem
Marcação à mercado detonou a rentabilidade mas por outro lado as taxas do IPCA subiram bastante e me animei a pegar alguns títulos com cupom na casa dos 4,6% e pré a 9,58%. Estou pensando em fazer uma gestão ativa daqui pra frente. Toda vez que os pré e IPCA subirem muito, vender e por no SELIC. Quando caírem muito (como aconteceu esse mês), tirar do SELIC e comprar. Agora é estudar pra determinar exatamente qual seria o gatilho.

Renda Fixa (CDB, LCx): 0,38%
"A renda fixa é minha pastora e nada me faltará." - IFM

Fundos: -8,3% - cruz credo!!!
Todos multimercados com baixas expressivas. Trend Ouro rendeu 6% mas pra mim broxou, esperava que subisse feito foguete. Vou começar a retirar aos poucos e procurar uma alternativa pra hedge. Mas só procurar... não adianta fazer hedge agora que a casa caiu.


FGTS: 0,25% 
Um dos investimentos mais rentáveis desse trimestre.

Ações: -26,5% - pelamordedeus
Mês de muito aprendizado ! Ação que menos caiu foi TAEE11 com -17%. E no início do mês comprei IRBR3 ! :-( Basicamente o pouco que ganhei nos últimos 3 anos foi pro saco e estou no negativo. Ações é pra longo prazo, coisa de 15 ou 20 anos ! Daqui uns 5 vou parar de aportar nisso.

FIIs: -14,5% - é o apocalipse?!; DY do mês ficou em 0,76%
Entrei na subscrição do BCRI11, só pra poucos dias depois ver a cotação despencar pra um valor bem inferior ao da subscrição. Uma piada ! Basicamente toda a valorização nas cotas de FIIs que tive nos últimos 3 anos foi embora e fiquei no zero a zero, tendo lucrado somente os dividendos. 

EUR: 2,1% - beleza
Na verdade tudo que é ETF despencou, só a valorização da moeda que segurou.

USD: 2,4% - jóia
Mesma coisa, o câmbio amorteceu a queda. Parece que moeda forte é melhor hedge que ouro, pelo menos nesta crise...

Stock plan: 6,7% - enganoso... 
Enganoso porque a ação despencou uns 20-30%, só que a alta do euro amorteceu a queda. Queria vender tudo esse ano mas agora vou ter que segurar, não vou vender na baixa. Está no mesmo patamar de um ano atrás.

Veja detalhes atualizados sobre a carteira no meu Painel de controle.

Outros ativos

Colchão de segurança (Tesouro SELIC, Fundo DI): 0,22% - medíocre

Previdência Privada:  -3,4% - outro desastre


Resultado do mês

Rendimento global da carteira: -5,8% - é de chorar
Rendimento global da carteira, líquido de inflação*: -5,9% - sem comentários
Taxa de retirada: 0,42% - acima da meta, mas já era previsto

Indicadores do mês:

CDI: 0,34%; no ano 1,04%
IPCA: 0,07%; no ano são 0,53% 
Poupança: 0,24%; no ano 0,98%

Continuo planejando uma taxa de retirada por volta de 2,6% ao ano no máximo, o que daria uma retirada mensal de 0,22%. Esta taxa de retirada é calculada em cima da carteira do início do ano, já descontando uma estimativa de dividendos a receber. Ou seja, é retirada mesmo (venda de ativos). 

Com a brusca mudança de cenário eu sentei pra recalcular tudo em cima da carteira que finalizou este mês horrível. Com a desvalorização da carteira agora só posso retirar no máximo 2,5% no ano, ou 0,21% ao mês. Pouco mudou com essa queda de 6%. 

Melhores investimentos do trimestre: Stock plan (8%), EUR (6,9%), USD (6,8%)
Piores investimentos do trimestre: Ações (-33,7%), FIIs (-25,2%), Fundos (-7,4%)

Todas rentabilidades acima são líquidas, com exceção de previdência privada. Já está descontado IR e taxas para se desfazer dos ativos. Para ativos no exterior considerei um ágio de 5% no câmbio se quisesse trazer tudo pro Brasil, mais multas e impostos.

E agora, José ?

A essa altura os planos pra 2020 já foram pro saco. Este ano já está perdido. Agora é juntar os cacos e rebalancear a carteira. Tem mais CDB vencendo esse mês. Vou rebalancear aos poucos, conforme forem vencendo os CDBs desse ano. Em tese tenho que sair um pouco de RF e aportar em FIIs, Ações e EUR, além de fortalecer um pouquinho meu colchão de segurança. Tenho suficiente pra quase 2 anos sem receber nada de dividendos, só vou arredondar pra 2 anos completos.

Quanto a bolsa, acho que vamos a 60K nos próximos dias. Estou olhando pra DIVO11. Tenho uma boa posição em GOVE11 mas sinto falta de outro ETF. A cada ação que se adiciona numa carteira com poucos papéis como a minha o risco aumenta muito. Há um mês adicionei IRBR3 e deu no que deu. Acho que o único grande mico da bolsa nos últimos tempos do qual escapei ileso foi a Cielo. De resto... IRB, Klabin, Hering, Ambev - estão todas aqui enchendo o saco, enquanto MPLU3 eu queimei ano passado. Ações individuais daqui pra frente só as blue-chips.

Tesouro Direto continuo aportando se as taxas chegarem perto de 5%. Ainda tem bastante Tesouro SELIC pra queimar (cerca de 35% da carteira de TD).

Neste momento meu patrimônio em termos reais está 5% menor do que quando chutei o balde. Estou projetando terminar 2020 com uma redução de 5,5%. São números bem duros, porém eu já tinha colocado isso na conta. Segue o jogo. Porém outra queda muito forte ou prolongada pode me jogar no território LeanFIRE, e aí sinto muito, prefiro voltar a vender meus neurônios para o sistema. Vamos ver o que 2021 nos traz, pois como disse, 2020 já era. Vem mais merda por aí - bolsa a 60k, inquilino atrasando ou não pagando aluguel, diminuição de dividendos... mas também virá a oportunidade de pegar Tesouro IPCA a 5% e pré a 10%, fora ações com belo DY no futuro e FIIs de qualidade com P/VP baixo.

YOU CAN'T BE ON FIRE IF YOU CAN'T STAND THE HEAT !!!


sábado, 14 de março de 2020

Carta ao futuro eu


Junho/2025

E aí, bicho ? Beleza ? Pois é, já fazem 6 anos que você chutou o balde e partiu pra aquele auto-exílio, começando um sabático por tempo indeterminado. Lembra que poucos meses depois rolou um derretimento global dos mercados, por causa de mais uma epidemia de gripe ? Todo ano tem, mas nessa a mídia e os governos conseguiram tocar o terror na população. E os tubarões do mercado aproveitaram pra realizar seus lucros.

Foi fundamental o seu comportamento na ocasião. Na crise de 2008 você tinha um monte de fundos de ações recomendados pelo gerente do banco. Não sabia bulhufas sobre onde tinha se metido. Entrou em pânico e vendeu no fundo da recessão ! Sardinhou total ! 

Só que na crise do coronavírus foi diferente. Você estudou e fiz mil planilhas justamente pra saber como lidar naquela ocasião. Você se preparou. Claro que na hora H foi punk. A bolsa derreteu legal mas você não vendeu no fundo. Afinal, pra que vender FIIs e ações pagadoras de dividendos porque a cotação caiu, se o que importa mesmo são os dividendos ?

É claro que bem no começo da crise você se deslumbrou, né ? De repente caiu 10% e você já vinha querendo aumentar posição em alguns ativos. Correu, catou grana da reserva de segurança e comprou. Só que despencou mais ainda nos dias seguintes. Aí sim que você se deu conta de uma armadilha chamada repique de baixa. Foi um aprendizado. Além disso, não se deve abandonar a gestão da carteira num momento de crise. Não se deve comprar mais de um certo papel só porque ele caiu mais que outros.

Outro aprendizado: lembra que uma semana antes da bomba estourar aquele fundo de ações super badalado abriu pra captação ? Você já vinha monitorando, aí no dia que abriu você correu e jogou lá um pouco da reserva de segurança. Que cagada ! Você aprendeu 2 coisas: 

1. não se deve usar a reserva do dia-a-dia pra investir
2. um ativo volátil como um fundo de ações não pode ficar assim abrindo e fechando na hora que bem quiser. Você quis investir mais, comprar mais cotas com o mesmo dinheiro, porém aquela merda estava fechada pra captação ! Dançou !

Depois dessas valiosas lições você segurou a onda e esperou o mercado se estabilizar pra aí sim rebalancear a carteira. Era muita volatilidade. Tinha vários circuit breaker por semana, uma loucura ! Não dava pra operar daquele jeito. Quando a coisa mais ou menos se estabilizou você racionalmente, aos poucos, sem movimentos bruscos, rebalanceou a carteira de acordo com sua alocação de ativos pré-estabelecida. Entre tantos ativos, aquele fundo que segue o ouro enfim serviu pra alguma coisa. Subiu feito um foguete e depois se transformou em ações pagadoras de dividendos e FIIs, comprados a preço de banana.

Você aproveitou as oportunidades. O Tesouro IPCA rapidamente subiu pra 5% e você não vacilou. Era hora de travar uma ótima rentabilidade no longo prazo. A cada 6 meses esses cupons alegram seu mês. Diziam que TD era arriscado por causa de calote do governo. Imagine bolsa então ! Que empresa iria lucrar ou mesmo querer operar num ambiente assim ?

É tudo lógico. Assim como em 2008, você não tinha motivo pra vender tudo no fundo. Aquilo era dinheiro que você não ia usar naquele ano nem no ano seguinte. Em 2008 você tinha uma grana na poupança, emprego e recebia todo mês. Em 2020 você tinha uma reserva, um colchão de segurança que era suficiente pra cobrir suas despesas por 2 anos no pior dos casos. Tinha ainda dividendos pingando todo mês. Não havia motivo pra pânico. Era baixar a cabeça e seguir a estratégia

Parabéns pela disciplina !

PS: se estiver lendo isso no seu laptop sentado numa mesa de escritório é porque, apesar de tudo, o plano não funcionou. Pelo menos deu errado logo no começo e ainda deu tempo de você voltar pra Matrix enquanto podia. Imagina se você tivesse 65 anos quando a planilha do AdP te dissesse que você tinha que voltar a trabalhar ?

sexta-feira, 6 de março de 2020

Sobre o derretimento global dos mercados


Bem, amigos, todo mundo já sabia que uma hora a festa ia acabar. Mas ninguém queria que ela acabasse, né ?

Desde que descobri o movimento FIRE e passei a acompanhar de perto minhas finanças, passei por 2 momentos ruins - o "Joesley Day" e a greve dos caminhoneiros. Estes porém foram eventos que abalaram somente o mercado brasileiro.

Tenho tentado permanecer calmo no meio dessa zona. Afinal já fiz mil contas e planilhas. Já construí reserva pra passar por tempos magros, isolado da volatilidade do mercado. Mas pra ser honesto me sinto incomodado e um pouco frustrado. Seria tão bom se a festa continuasse... Mas certamente não vou entrar em pânico e vender tudo na baixa. Pelo contrário, até comprei (pra cair de novo).

Se eu estivesse "na ativa" e recebendo salário todo mês estaria aportando pesado. Porém, pra quem não sabe, estou num sabático e vivendo na Europa. Isso significa que a partir de agora as remessas vão ficar bem mais caras e vão influenciar negativamente minha taxa de retirada. Esta eu tinha estimado em 2,6% pra este ano, porém isso era com o euro na casa dos 4,50.

Há pouco tempo atrás eu pensava, e ainda penso, como uma crise pode criar oportunidades. Ficava ansioso pra ter logo uma crise, uma recessão pra poder aproveitar. Acho que é nisso que temos que nos focar - nas oportunidades, não nos prejuízos (alô IRB) que estamos tendo. Onde estarão elas ? Vamos manter os olhos abertos.

Aliás um pequeno parênteses sobre a questão da IRB. Esse rolo me traz a mente uma frase da blogueira IFM, frustrada com a palhaçada que fizeram com a MPLU3:

A renda fixa é minha pastora e nada me faltará.

Creio que este ano já está comprometido. Vai ficar essa ladainha de corona vírus mais uns 2 meses, até começar o verão no hemisfério norte. Com clima mais agradável, o vírus deve dar uma sossegada. Resta saber se no Brasil, com a chegada do inverno, a situação vai estar sob controle. Pra completar o quadro, com o nosso presidente dando declarações bombásticas toda semana fica difícil acreditar numa recuperação.

Esse ano a bolsa já caiu 15%. Descendo mais uns 10% posso pensar em rebalancear. Que a alocação de ativos seja minha guia !

Em resumo: foi pra isso que está acontecendo que a gente estudou, fez cálculos, discutiu regra de 4% e várias estratégias. Que no longo prazo seja apenas uma marolinha !